O setor elétrico e as emissões de carbono

Na semana passada, o governo anunciou que irá desligar quatro termelétricas até o final de maio, apresentando como justificativa um nível seguro de água nos reservatórios das hidrelétricas. Com essa medida, será possível economizar aproximadamente R$ 100 milhões por mês, uma vez que a geração elétrica nestas usinas é muito mais cara do que na hidroeletricidade.

Lendo assim, parece que temos tudo sob controle e que estamos no caminho certo em relação às questões ligadas a geração de energia no país. Mas o que faltou ser dito pelo ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, é o que realmente deveria ser a notícia. De alguns anos pra cá nossas reservas energéticas não estão mais atingindo o nível de segurança que atingia antes. Os reservatórios das hidrelétricas estão hoje em seu menor índice desde 2001, o qual, antes no período de chuva chegavam a cerca de 95% de sua capacidade, hoje temos 55% desta reserva e sem perspectiva de mais chuvas para garantir o abastecimento.

O que aconteceu no final do ano passado tende a se repetir. Notícias, reuniões e especulações a respeito de um novo apagão devem voltar a ter destaque, pois sem dúvidas o cenário está ficando cada vez mais preocupante. Ao final de 2012 as usinas hidrelétricas estavam operando com seus reservatórios no mínimo, enquanto que todas as térmicas estavam ligadas para atender a demanda de energia do país. Ou seja, alguns dias a mais sem chuva e não teríamos mais alternativas para suprir a demanda energética da população neste período.

Desde então, todas as usinas termoelétricas continuaram ligadas para tentar dar fôlego aos reservatórios e garantir uma reserva para o que vem pela frente – Copa das Confederações agora em 2013, Copa do Mundo em 2014, e em 2016 as Olimpíadas. Grandes eventos que irão atrair muitos turistas os quais irão consumir, dentre outras coisas, bastante energia. Fora estes e outros grandes eventos já agendados no Brasil, existe também a perspectiva de crescimento do país, o que significa mais produção e também maior consumo, sendo a energia a peça chave desta cadeia de acontecimentos que temos pela frente.

O preocupante é que as novas usinas hidrelétricas que estão sendo construídas são do tipo “fio d´água”, que significa que não tem os grandes reservatórios para garantir a geração em tempos de seca. As usinas existentes (térmicas e hidrelétricas) são antigas e necessitam de reparos para evitar danos e perdas recorrentes, assim como as linhas de transmissão que acabam não suportando o uso intenso sem a correta manutenção. Tudo isso sem contar a falta de planejamento, como o exemplo das novas linhas que deveriam estar disponíveis no nordeste onde temos uma usina eólica pronta, gerando energia limpa, mas sem poder agregá-la à rede nacional pelo fato da estatal responsável não ter construído as linhas de transmissão necessárias.

Um relatório publicado pela Ernst & Young descreve um cenário onde a perspectiva é que no mundo, 70% de todas as novas usinas de geração de energia elétrica serão de fontes renováveis – principalmente solar e eólica, e o Brasil tem todo o potencial para continuar sendo a referência em geração de energia limpa. O nordeste tem capacidade para originar cerca de 300 GW apenas com a energia eólica, mais que o dobro do total que temos instalado hoje no Brasil. Mas o que vemos o governo apresentar são usinas térmicas, exploração no pré-sal, importação e subsídio à gasolina, incentivo à indústria automobilística e construção de grandes hidrelétricas na Amazônia – com gastos extraordinários para construção e transmissão, baixa eficiência na geração e uma série de questões éticas e ambientais envolvidas.

Pelos dados disponibilizados no site do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, podemos acompanhar como nossa energia está se tornando mais “suja”. Estamos emitindo mais carbono por unidade de MWh consumido, o que vai completamente contra o proposto pelos acordos internacionais de reduzir emissões de carbono e buscar combater o aquecimento global. Os estados já estão começando a se mobilizar para tentar lançar luz a esta questão e assim traçar metas para fazer com que as indústrias se preparem para novas exigências e regulamentações referentes à gestão das emissões de carbono em sua produção.

A CETESB em São Paulo já exige de determinados setores da indústria a entrega do inventário de emissões de Gases de Efeito Estufa, assim como faz o INEA no Rio de Janeiro tornando obrigatória a apresentação deste inventário para fins de licenciamento ambiental. Logo, este é um assunto que estará cada vez mais presente no cotidiano dos gestores e responsáveis técnicos das empresas, relacionando cada vez mais a questão das emissões de carbono e o uso da energia no país.

Henrique Mendes é Bioquímico pela UFJF com MBA em gestão ambiental pela FIT. Gerente de Negócios da www.neutralizecarbono.com.br e Consultor na www.greendomus.com.br.

Sobre Neutralize Carbono

Empresa especializada em projetos de gestão das emissões de Gases de Efeito Estufa.
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