IDH e meio ambiente: relação complexa

Publicado em Ambiente Legal*

Conciliar dados – e políticas públicas – é desafio para governos

Por Vitor Lillo

Imagem: Reprodução/ Internet (em atendimento à norma legal 9.610/98)

Imagem: Reprodução/ Internet (em atendimento à norma legal 9.610/98)

Em vinte anos, o Brasil avançou impulsionado pelas áreas de saúde e renda, mas com a educação ainda deixando a desejar. Essas são as conclusões do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), divulgado há duas semanas.

De acordo com o índice, a expectativa média de vida subiu de 64,7 para 73,9; a renda que era de 0,647 agora é de 0,739; já a educação saltou 0,279 para 0,637, insuficientes 128,3%. No total, o IDH do país passou dos 0,279 de 1991 para 0,637 em 2010.

“O Brasil se mantém estável, mas estamos muito piores frente ao Chile e Argentina. Temos índices comparáveis aos do Equador e da Bolívia”, explica Felipe Bottini, consultor especial do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

É fato que nosso país tem muito que avançar. Da mesma forma que o próprio IDH, criado em 1990, precisa se adaptar ao grande desafio dos anos 2000: conciliar desenvolvimento humano com a preservação do meio ambiente.

Contas que não fecham                  

O indicador, feito com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) avalia três componentes básicos: longevidade, educação e renda, em uma escala de 0 a 1. A soma destes componentes define o IDH do país.

“A base do IDH é importante de duas formas: horizontal e vertical. Daí avalio como meu país está em relação aos outros índices e também em relação aos meus vizinhos”, explica Bottini.

Meio ambiente, ainda não é avaliado de forma isolada, pelo menos não oficialmente. Isso porque a Nicarágua, pequeno país da América Central situado entre Honduras e Costa Rica, desde 2011 adiciona esse “quarto item” ao indicador oficial.

É avaliada a proporção da área total coberta por florestas, a proporção de espécies da fauna e da flora “dentro de limites biológicos seguros” (não ameaçadas de extinção) e a segurança climática.

Engana-se quem enxerga isso como uma manobra para “turbinar” o IDH do país. Com a adição dos indicadores ambientais, o IDH do país cai dos oficiais 0,743 para 0,700, um alerta de que há muito a se fazer em termos de proteção ambiental por lá.

Mas afinal existe uma conexão entre desenvolvimento humano e meio ambiente? Segundo Felipe Bottini, existiria uma suposta relação entre baixo IDH e maior privação ambiental

E também existe uma projeção feita pelo próprio PNUD em 2011 apontando que o IDH poderá ser 8% menor do que a projeção inicial em um cenário que confirme as perspectivas atuais de aquecimento global, previstas entre dois e quatro graus.

“Países de IDH mais elevado apresentam cobertura florestal de pouco mais de 1% e nos médios está em 0,5%. Mas ainda é preciso entender essa questão de forma interdimensional. Isso é complexo e ninguém tem uma resposta”, afirma o economista. E sem essa confirmação, é difícil fazer projeções ou políticas públicas.

Para o professor Marcel Bursztyn, do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (UNB), O IDH “é uma questão conceitual”. “O melhor índice acaba sendo o pior, porque ele acaba exigindo coisas que a gente não tem”, opina.

“Se decidirmos fazer uma coisa mais complexa, não vai ser possível, até mesmo porque muitos países não têm dados completos. Se formos a continentes como a África, por exemplo, você não vai encontrar dados de cobertura florestal em todos os países”, sustenta Bursztyn.

IDH dos municípios brasileiros (foto) evoluiu entre 1991 e 2010, mas desigualdade ainda persiste. (Imagem: Reprodução/Internet)

IDH dos municípios brasileiros (foto) evoluiu entre 1991 e 2010, mas desigualdade ainda persiste. (Imagem: Reprodução/Internet)

IDH Verde

“Na verdade a gente está engatinhando. Indicador pode se muito bom, mas pode ser trabalhoso”, afirma Marcel. Uma prova disso é que o IDH, apesar da credibilidade que possui, não fica imune às críticas.

Segundo o professor Bursztyn, é a de se ater a dados quantitativos e não aos qualitativos. “O IDH, por exemplo, não mede se a escola é boa, mas a UNESCO tem o PISA. Na saúde, a OMS tem indicadores melhores”.

Felipe Bottini acredita que no formato atual do indicador é complicado adicionar componentes ambientais. “Quando você olha os índices de renda, saúde e educação, eles podem variar muito facilmente. Sustentabilidade é mais profundo, à longo prazo.”

Sendo tão difícil incorporar índices de sustentabilidade e proteção ambiental no indicador, a solução estaria, portanto, na criação de um índice específico, um “IDH Verde”? Os dois entrevistados concordam com a ideia.

“O IDH verde é interessante, você pode fazer algo mais voltado. Acho que para se medir a sustentabilidade de forma adequada, tem que colocar variáveis ambientais com impacto de médio, curto e longo prazo: emissões e cobertura vegetal porque isso garante sustentabilidade, acesso a água potável, etc”, sustenta Bottini.

“Acho que é necessário, porque todo mundo concorda que é a favor à sustentabilidade. Agora vamos ter que trabalhar melhor isso. Antes se trabalhava com a dimensão econômica, partimos para a social com o IDH, e agora temos que encaixar esse terceiro tripé que é o da sustentabilidade”, completa Marcel Bursztyn.

A discussão que apresentamos nessa reportagem não é meramente teórica. É fundamental que se encontrem formas de relacionar meio-ambiente e desenvolvimento humano no papel, pois assim será possível que sociedade e instituições públicas tracem planos concretos com impactos positivos para nós e o planeta hoje (ou seria ontem) e sempre.

Sobre Neutralize Carbono

Empresa especializada em projetos de gestão das emissões de Gases de Efeito Estufa.
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